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A 19° edição do Festival Bananada acerta na representação das mulheres

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Foto; Renato Vital
Foto: Renato Vital

O Festival Bananada 2017 acabou no último domingo (14) com o mega show de Mano Brown e Boogie Naipe. Entretanto, antes de Brown encerrar a 19° edição do maior festival de música independente do Centro-Oeste, um batalhão de mulheres artistas, de diferentes gêneros, passou pelas inúmeras casas durante a semana e, claro, pelos cinco palcos no Centro Cultural Oscar Niemeyer (CCON) no final de semana.

Ao longo do evento, os goianienses e os brasileiros de diferentes regiões que passaram pelo Festival, tiveram ao alcance de seus olhos 112 atrações. Dessas, as mulheres estiveram presente em várias. Fala-se que 60% da programação do Bananada teve mulheres em sua composição.

Ao contrário da 7° edição do Festival Lollapalooza que teve apenas uma mulher brasileira no lineup, Céu, que tocou no domingo no palco Skol às 13h15, o Bananada escalou 41 atrações que têm em sua composição alguma mulher ou apenas mulheres.

O Lollapalooza foi criticado por isso nas redes sociais, claro. Em entrevista para o canal “Atuando e Noticiando” no youtube, Céu disse que se sentiu responsável em representar as mulheres no festival. A cantora também declarou que demorou ser reconhecida como compositora no Brasil.

Diferentemente do que vimos neste ano no Lollapalooza, pode-se afirmar que a 19° edição do Bananada foi delas. Na segunda, por exemplo, Bruna Mendez ficou responsável por fechar o show de abertura no SESC. Além de ter subido novamente no sábado no palco SLAP. Vale ressaltar que cantoras que se apresentaram no meio da semana, também se apresentaram no final de semana.

Estamos presenciando as mulheres, mais uma vez, reivindicar maior espaço nos mais diversos âmbitos da sociedade, inclusive na música. Assistimos a elas em diferentes palcos durante uma semana. Não faltou opção para quem foi ao festival, elas mandaram seu som no rock, no rap, na MPB, nas picapes até na música clássica, como foi o caso da Orquestra Filarmônica de Goiás na quinta-feira.

O Rock n’ Roll é considerado um gênero altamente masculino, no entanto, assistir ao show da RAKTA no domingo foi a prova que esse discurso de que rock não é para elas, só confirma a pura falácia que é o discurso machista.

Outro gênero musical que também é conhecido como altamente masculino é, claro, o Rap. No entanto, karol Conka prova, assim como as meninas da RAKTA e da Far From Alaska, que lugar de mulher é onde elas quiserem estar.

Discursos
Enquanto elas se apresentavam, eu me divertia observando centenas de homens curtindo o som que elas mandavam. Algumas foram além e não só cantaram, mas também discursaram. Foi o que fizeram Larissa Conforto, da Ventre e Karol Conka. Neste momento, meus ouvidos estavam atentos à voz delas, mas meus olhos observavam os homens na plateia e também os que trabalhavam. Como homem, eu acho importante observar a reação de como outros homens recebem esses discursos.

Na sexta-feira, a banda carioca Ventre mandou o recado no palco Chilli Beans. Larissa Conforto, baterista e vocalista, além de cantar, deu o recado diretamente para as centenas de homens que ali estavam presentes. “Nós, mulheres, já estamos protagonizando o movimento feminista. Homens, venham lutar com a gente!”, disse Larissa em seu discurso durante o show.

Larissa, que foi vítima de abuso sexual e que sempre lutou contra o preconceito, até quatro anos atrás, não cantava na Ventre e não fazia discurso. Larissa em entrevista ao Outro Indie declarou que usou daquele espaço em que ela estava para falar sobre a desigualdade de gênero e de violência, porque hoje ela pode, pois tiveram muitas mulheres inspiradoras que permitem ela discursar hoje.

“A gente tá vivendo a primavera da música brasileira. Todas as bandas se conhecem. Finalmente, esse mercado está começando a se tornar sustentável. O Bananada é um festival que se coloca politicamente; coloca ‘Fora Temer’ no telão, que traz a Mídia Ninja para fazer a cobertura. Ter esse refúgio, esse movimento de resistência em Goiânia significa tanto, significa que existe uma base, existem pessoas, existem braços. Enquanto houver braços há luta”, afirmou Larissa sobre o atual momento da música e sobre o Bananada.

Foto: Renato Vital
Foto: Renato Vital

Karol Conka foi uma das principais atrações no domingo. A curitibana fechou as atrações do palco Skol, nesta edição, para um imenso público. Karol cantou suas canções que falam da independência feminina como, “Sandália”, “Gandaia”, “É o poder” e “Tombei”. Além dessas, ela também cantou “100% feminista” dedicada à amiga e também cantora Mc Carol, “de Niterói”, como lembrou Conka

Para finalizar seu show, Karol fez à capella da sua nova música “Lalá”. A letra fala da importância de nós, homens, conhecermos bem a genitália das mulheres e não sermos uns babacas na hora do sexo oral. A cantora criticou a péssima habilidade dos homens no uso da língua na vagina. “Dá pra perceber que existem vários/ Falam demais, fingem que faz/ Chega a ser hilário/ Mal sabe a diferença de um clitóris pra um ovário”, cantou Karol.

Salma Jô, cantora e compositora da Carne Doce, cantou suas músicas que por si só já são discursos feministas. Com um público bem diverso, mas majoritariamente feminino, de homossexuais e de jovens, a banda goiana cantou seus dois maiores discursos “Artemísia” e a mais forte de todas “Falo”.

A banda divulgou em fevereiro o videoclipe de “Falo”, o qual retrata a revanche de um grupo de mulheres- incluindo Salma- à Santíssima Igreja Católica Apostólica Romana responsável pela “Caça às Bruxas” nos anos de 1450 a 1750 na Europa medieval.

Foto: Renato Vital
Foto: Renato Vital

Representatividade
Acredito que já aprendemos o quanto a representatividade é importante e o quanto ela importa para uma parte da população que está à margem da sociedade. Por isso, mulheres, gays, lésbicas e transexuais se sentiram representadas e acolhidas no Bananada.

Caminhando pela esplanada do CCON, era possível ver inúmeras pessoas transexuais, principalmente, mulheres trans, assistindo aos shows. Rafaela Lincon Lima era uma dessas mulheres. Já entre os artistas escalados para se apresentar estava a Liniker.

Foto: Renato Vital
Foto: Renato Vital

Liniker e os Caramelows se apresentaram no sábado no palco Chilli Beans, o maior entre os cinco palcos. O show da banda paulista foi dedicado à outra mulher, à Bárbara Rosa, ex-integrante da banda morta em junho de 2016.

Rafaela Lincon, mulher trans e negra (22) afirma que a organização do Festival acertou no quesito representatividade. “Liniker é uma pessoa incrível e acredito que ela está representando muito bem as pessoas trans negras do Brasil. Todas as diversas bandas tiveram seu espaço no coração de cada pessoa que participou do festival neste ano”, disse Rafaela.

Metralhadora em estado de graça
A metralhadora dessa 19° edição do Bananada aterrissou apenas no último dia de festival. Estou falando, claro, de Angela Carneosso, codinome de Laura Diaz, vocalista do Teto Preto. A banda se apresentou, ou melhor, nos metralhou com balas da mais pura tradução do que é arte no palco Skol.

Na verdade, é difícil até de escrever aqui o que o público assistiu naquele domingo comemorativo de dias das mães. Muitos do que estavam ali não conhecia a banda de São Paulo que tocou pela primeira vez em Goiânia.

Foto: Cesar Fontenelle
Foto: Cesar Fontenelle

Angela entrou no palco escondida atrás de uma bandeira com a cruz que identifica a banda. Ao cair o pedaço de pano, todos foram surpreendidos por uma vagina peluda à mostra. Claro, que foi uma surpresa para todos que ali estavam, até mesmo para quem já conhecia a banda.

Para quem não conhece Laura Diniz/ Angela Carneosso, ela nunca teve problema com a nudez. Por não se importar com isso, a artista de 30 anos foi detida em 2014, durante as manifestações que se espalharam pelo Brasil. A cantora, na época, respondeu processo jurídico por formação de quadrilha.

Ao site “Natura Musical” Laura declarou que “usa a atitude performática para dar voz ao posicionamento libertário”. No palco, Angela, portando sua voz e atitude potentes, desperta fantasias dionisíacas. “Quando nasci em corpo de mulher, nesse mundo de hoje, infelizmente não tive opção de não ser colocada como objeto sexual, vejo o corpo como um campo de batalha”, disse a cantora ao site.

Logo, a pussy de Angela Carneosso deixou de ser um estranhamento e um objeto sexual para quem assistia ao show e passou a ser um ornamento que compunha o figurino da artista. Assim, pode-se notar o prazer no olhar de todos que assistiam àquele espetáculo. Vida Longa, Teto Preto!

No domingo, foi a vez de Tulipa Ruiz. A cantora celebrou a diversidade com a canção “Proporcional”, cuja letra ressalta a pluralidade dos corpos. Tulipa preparou um setlist também diverso, reunindo canções dos seus três álbuns.

Um dos seus maiores singles é, sem dúvida, “Só sei dançar com você”. Porém, dessa vez a cantora vez diferente. Para cantar sua música mais conhecida, ela convidou outra mulher, a Liniker. Juntas, em uma performance dançante e suave, elas cantaram e celebraram a música no palco Chilli Beans.

O Público, com certeza adorou o que viu durante uma semana de Festival Bananada. A Professora Flaviana Mesquita (24) foi apenas no sábado, e assistiu aos shows da Salma Jô, Luiza Lian e Bruna Mendez. “Artistas excepcionais. Senti-me maravilhosamente representada”, afirmou.

As amigas Lorena Rabelo e Lauriana Vinha de Brasília, também se disseram representadas com a quantidade de mulheres no lineup. As amigas ainda ressaltaram que é pra ter mais artistas mulheres no ano que vem, já que será a 20° edição. Rafaela Lincon até fez sugestão, “acredito que da próxima vez a IZA possa também estar entre as mulheres de atitude do Bananada 2018 e é claro a AnarcoTrans entre as Djs”.

Esta foi a segunda vez de Lauriane no festival goiano. Ela esteve na edição de 2015 e se sentiu surpreendida pelo crescimento do Festival. Sobre as atrações femininas, a designer declarou que se sentiu representada. “Surpreendi-me muito com a Luiza Lins, Teto Preto e, claro, Akua Naru. Eu não as conhecia, assisti aos shows delas por estar perto dos palcos e eu as achei incríveis”, afirmou.

Foto: Renato Vital
Foto: Renato Vital

Este foi a primeira vez de Lorena Rabelo no Bananada. A tradutora de 24 anos já avisou que vai se preparar melhor para voltar ano que vem para poder curtir a semana toda de festival.

Quanto às inúmeras atrações femininas, Lorena disse que amou o lineup, “cheio de artistas incríveis trazendo visibilidade pra muita causa importante. Não é em todo festival que a gente tem uma Karol Conká gritando ‘100% feminista’ e depois dando uma aula à capella de como chupar uma mulher”.

A candanga ainda ressaltou que “a gente tem que pensar que a música tem o poder de unir pessoas, de transmitir mensagens, de fazer pensar e é muito importante que um festival dê voz às mulheres, às trans, às lésbicas e outras minorias políticas. Que na próxima edição isso seja ainda mais notável”, concluiu.

Confira aqui as artistas e bandas que têm mulheres em sua formação que se apresentaram no 19° Festival Bananada:

Cherry Devil- Sarah Abdala- Niela- Chell- Bruna Mendez- BRVNKS- My Magical Glowing Lens- Papisa- Miêta- Lari Pádua- Lava Divers- Ventre- Far From Alaska- Hierofante Púrpura- Luiza Lian- Carol Sterica (Sapabonde)- Athena Ilse- Lulu Praxedes- Engroove- Céu- Akua Naru- Plutão Já Foi Planeta- Os Mutantes- Maria Gadú- Liniker e os Caramelows- Carne Doce- Consuelo- Come e Hell Live- Morgana- Karol Conka- Gabb Borghetti- Tuipa Ruiz- Teto Preto- Far From Alaska- Rakta- Wine B.

Confira também a playlist “Elas no Bananada 2017” no Spotify do Outro Indie.

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