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A ascensão de Anitta ao trono do pop

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Corra, fuja, tape os ouvidos: tente escapar de Anitta de todas as formas. Diga que não gosta, que não é seu estilo ou qualquer outra coisa. Mas fato é: todo o brasileiro hoje escuta a cantora.

Ela está em todos os lugares: nos vídeos mais vistos do Youtube; na trilha das novelas; nos memes do facebook. E se os ouvidos mais puritanos dirão que nada disso importa, no fundo sabem que é mentira (ainda mais depois dela ter emplacado três hits ao mesmo tempo). Anitta se tornou basicamente o símbolo máximo da música realmente popular brasileira.

Mas o que acontece quando ela decide ir ainda além disso? Quando decide investir no sonho que o pop nacional sempre teve e que nunca realizou de fato desde Carmem Miranda, o de ter uma intérprete de sucesso global?

A verdadeira relevância de Anitta até o momento é a de ter subvertido a lógica impregnada do pop feito por aqui: artistas de um mesmo gênero musical tocando músicas parecidas até a exaustão, sendo que, apesar de sempre haverem alguns destaques, nunca trata-se de determinada banda ou cantor que está na moda, mas um estilo musical. Foi assim com o BRrock nos anos 80, o  Axé nos anos 90 e o Sertanejo Universitário recentemente.

Mas Anitta não representa nenhum gênero específico, Anitta representa Anitta. É bem verdade que ela surgiu junto à uma leva de artistas que fazem um pseudo-funk carioca radiofônico que até sua avó pode ouvir sem se chocar (tanto). Leva essa da qual também faziam parte Naldo Benny, Valesca (versão 2010’s), Ludmila e MC Gui. Todavia, foi a cantora quem notavelmente teve menos medo de se desvincilhar da imagem do funk para alcançar a universalidade do pop propriamente dito.

Assim sendo feito, Anitta logo se destacou com versões em português brasileiro do pop eletrônico e acústico que costumamos importar dos Estados Unidos, com exceção de um “Movimento da Sanfoninha” pra lá e vários flertes com o Rap pra cá. Assim se baseou seus dois primeiros álbuns, “Anitta” e Ritmo Perfeito”.

Mas eis que em 2015 chega “Bang”, o terceiro álbum, e com ele alguns sinais de mudança. Apesar de em geral o álbum se basear no mesmo pop eletrônico e acústico seguro e muito normal dos seus antecessores, existem alguns pontos interessantes aqui. O primeiro é a faixa-título, com uma batida bem envolvente e um clipe realmente bom, e as parcerias “Gosto Assim”, com Dubet, e “Sim”, com Cone Crew Diretoria, dois raps de rádio fm legalzinhos. Mas o grande lance mesmo é “Essa mina é Louca”, essa faixa sim, realmente mudou o jogo.

Foi essa música que anunciou a Anitta que estava por vir. Com um sambinha moderninho, a cantora passou de uma tradutora do pop americano para uma artista que sabe unir os gêneros populares de seu país de forma a criar uma música genuinamente brasileira sem ser desmasiadamente local ou clichê.

Prova disso é as parcerias que vieram a seguir. Existe algo mais brasileiro que “Você Partiu Meu Coração”, com Nego do Borel e Wesley Safadão? Com um clipe que lembra o universo de Jorge Amado e uma letra que combina perfeitamente com a maneira da juventude brasileira de encarar relacionamentos (foi bem estranho formular essa frase mas é isso ai), a faixa se desenrola em um forrozinho com traços de funk sedutor.

E o que dizer de “Loka”, com Simone e Simaria? A faixa mergulha completamente no universo do Sertanejo Feminino que tem se tornado crescente e revelado duplas realmente interessantes, ainda que presas à alguns problemas criados pela hegemonia do Sertanejo Universitário. O resultado é um hit poderoso.

É essa comunicação feita de maneira tão simples e efetiva com gêneros populares diferentes que, se não serve de inspiração, dá gás para que artistas como Pablo Vittar, Karol Conká e Tati Zaqui façam essa mesma comunicação e obtenham sucesso. E é nesse momento, em que a cantora passa a ser uma forte referência dentro do território nacional, que é possível dar o próximo passo.

Senhores, analisemos o que foi feito até aqui: uma cantora ascende em um momento oportuno, adequa-se ao ambiente radiofônico e se mantém até tornar-se capaz de produzir o que bem entender e servir de padrão. É a história de como um bom produto pop é criado.

Anitta gerencia a própria carreira, e pelas suas entrevistas da pra ver que ela tem sim um plano bem traçado, com o objetivo de chegar ao topo. Ela chegou ao topo do Brasil, agora quer chegar ao topo do planeta.

Isso explica as parcerias com artistas latinos como Maluma e J Balvin e sua música em espanhol “Paradinha” (chegaremos nela em breve). Pelo visto, o plano trata-se de conquistar o próprio país, depois conquistar a América Latina e enfim o mundo (o que logicamente se dará pelos EUA). E trata-se de um momento oportuno para a realização da segunda parte da tarefa: a música latina está em ascensão no cenário global, com “Despacitos” e “Chantajes’ estourando. Assim sendo, a artista comunica-se com os cantores de sucesso desta vertente como em uma troca: ela os introduz ao público brasileiro (basta ver o sucesso que Maluma anda fazendo aqui depois de “Sim ou Não”) e eles a introduzem ao público hispânico.

Desta maneira, além de expandir seu sucesso pelo continente, Anitta passa a fazer parte do circulo de artistas que estão expandindo a música latina pelo mundo, sendo essa a porta do sucesso global que tanto almeja.

Agora chegamos ao momento o qual todos presenciamos semanas atrás, que nos fez dar conta da dimensão que as coisas estavam tomando e que motivou esse texto: Quando Anitta emplacou três hits ao mesmo tempo, cada um em uma língua, sendo que um é uma parceria com Iggy Azalea, o outro, com Major Lazer e Pabllo Vittar, e dois deles permaneceram ao mesmo tempo como primeiro e segundo vídeos mais vistos do Youtube.

Caros amigos, isto é nada mais do que a explosão de uma bomba plantada à muito tempo, o fruto de um trabalho muito bem pensado e efetuado. E cada uma destas faixas cumpre uma função especifica no plano de carreira da cantora.

“Switch” é a apresentação da cantora ao público internacional já em sua forma de diva pop convencional e não como fruto exótico latino-americano, como por enquanto ela tem sido tratada por lá. Aqui, Iggy se torna a madrinha de Anitta para o sucesso.

“Paradinha” é a concretização da aproximação da cantora com o público latino. Vê se isso não só pela letra em espanhol, mas também pelos comentários em espanhol que o canal oficial da cantora fez no vídeo com o convite para escutar a playlist “La Musica de Anitta”. É também aqui que Anitta se encaixa no esteriótipo estadunidense de mulher latina (que fala espanhol e usa aquelas roupas e aquele cabelo), o que, querendo ou não, pode ser importante para conquistar território ali. Além do mais, fica a observação: uma brasileira cantando em espanhol em Nova York realmente quer dominar o mundo.

Por fim, “Sua Cara” deve significar bem mais para os Brasileiros do que quaisquer outros. Mas é uma parceria com o Major Lazer, oras, e honestamente, a melhor faixa do EP “Know No Better” e a mais ouvida. Aqui, o Major Lazer pode servir de padrinho internacional, como Iggy.

É interessante perceber que, com exceção de “Sua Cara”, nenhuma dessas faixas tem uma produção muito criativa. Ambas são muito parecidas com faixas que estavam no topo das paradas anteriormente e seguem uma formula de sucesso manjada.

Mas talvez Anitta esteja fazendo lá fora exatamente o que fez aqui: se firmar primeiro para depois fazer ataques mais ousados. Afinal, Anitta é isso: um produto pop muito bem planejado, organizado e infalível.

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