Em “Sob o Signo de Saturno”, a ensaísta norte-americana Susan Sontag apresenta um retrato superficial do filósofo judeu alemão Walter Benjamin:

“Era o que os franceses chamam ‘un triste’. Na juventude, parecia marcado por uma “profunda tristeza”, escreveu Scholem. Considerava-se um indivíduo melancólico, desdenhando os modernos rótulos psicológicos, e invocava a astrologia tradicional: ‘Nasci sob o signo de Saturno o astro de revolução mais lenta, o planeta dos desvios e das dilações…’.”

De percurso trágico e fim prematuro, sua descrição se encaixaria de forma fluida na figura de Marcelo Colares, personagem à frente dos Cigarettes e que há mais de duas décadas mistura música, desencanto e ainda alguma alegria. Após cruzar a faixa etária dos quarenta, Colares lança agora “Saturno Wins”.

O Cigarettes é um dos principais representantes da segunda geração de guitar bands brasileiras. No começo dos anos 90, Marcelo Colares saiu de Itaperuna para cursar faculdade no Rio de Janeiro, onde viu a ascensão do Second Come e PELVs como um recado de que era possível fazer o som que estivesse afim, com letras em inglês e influências gringas. No verão de 1994, Colares aproveitou as férias em sua cidade natal para gravar a fita demo Foolish Things and Blah Blah Blah, que foi parar nas mãos de Rodrigo Lariú, do midsummer madness, e dos integrantes da PELVs Dodô Azevedo e Gustavo Seabra, que ajudariam na próxima gravação ainda naquele ano.

Sempre à margem de qualquer cena, indiferente até mesmo às tendências do chamado indie brasileiro, o Cigarettes chega ao sétimo álbum de uma carreira pouco convencional, marcada por breves silêncios e pela famigerada independência, arriscando-se em temas e formatos pouco ou nada explorados ao longo de sua trajetória, imprimindo um tom de quase sobriedade às novas músicas.

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